
Era uma noite de tempestade sonora. No coração de um velho teatro abandonado, um grupo de músicos se reunia para ensaiar uma peça que jamais havia sido escrita. A composição era viva, pulsante, e desobedecia todas as regras da harmonia tradicional. Um acorde, em especial, parecia ter vontade própria — escapava das partituras, se escondia entre os ecos, e surgia nos momentos mais inesperados. Era o acorde rebelde, o som que não se deixava domar.
O maestro, um homem de gestos largos e olhar febril, tentava capturar o acorde com sua batuta como quem tenta prender o vento. Mas quanto mais tentava controlá-lo, mais o acorde se distanciava, criando dissonâncias que arrepiavam a espinha dos ouvintes. Os músicos, entre o fascínio e o desespero, seguiam tocando, guiados por uma força invisível que parecia vir de dentro do próprio teatro.
A fuga do acorde rebelde não era apenas musical — era simbólica. Representava a ruptura com o previsível, o grito contra a repetição, a busca por uma nova linguagem. Cada nota que escapava do compasso era uma declaração de independência. E o público, que começava a se reunir ao redor do teatro, sentia que algo extraordinário estava prestes a acontecer.
Naquela noite, o som se tornou revolução. O acorde rebelde invadiu os corações, desfez certezas, e fez com que até os mais céticos se rendessem à beleza do caos. Não havia mais maestro, nem músicos, nem palco. Havia apenas o som — livre, indomável, eterno. E quem o ouvia, jamais voltava a escutar da mesma forma.
Dias depois, a cidade ainda comentava o fenômeno. Alguns diziam que o acorde era uma entidade, outros acreditavam que era apenas fruto de uma genialidade coletiva. Mas todos concordavam em uma coisa: ele havia mudado algo. A música, antes contida em moldes rígidos, agora se expandia como um rio que rompeu suas margens.
“A fuga do acorde rebelde” tornou-se lenda. E como toda lenda, ela continua viva — em cada improviso ousado, em cada nota que desafia a lógica, em cada artista que ousa não seguir o roteiro. Porque o som, quando se liberta, não volta atrás. Ele ecoa. Ele transforma. Ele foge — e ao fugir, nos ensina a escutar de novo.
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